sexta-feira, 16 de abril de 2010

m e m ó r i a s


Sempre quando recordo minha infância, esse é o filme que me vem à cabeça. Eu gostava muito de assisti-lo na sessão da tarde. Eu nem sabia quem era Joana Dar´c. Hoje é um dia nostálgico.

pactuei

inda lembro

como se fosse hoje mas não é
conto inacabado
cidade pequena
fogos de artifício
sonhos de papel
lembro bem
apagado na memória
o teu olhar esperando, tuas orações sonhando, teu corpo vagando

teu sonho ia embora na aurora proutra hora
escutei sorriso. admirado. encantado.

seu nariz arrebitado, agora palhaceia dívidas
e toda alegria adormeceu...que frio que me dá
nas horas que sonho acordado...e meu sono se manda, se manca...e me acorda
pelo despertador cansado
levanto quebrado, mirando o espelho...buscando o teu olhar...ilustrado na memória
 que alegria a minha se acordasse aqui ou lá
mas para você estar

mas eu fui e tu ficaste...se mandou e eu olhei a partida
partilhei a despedida
olhei o céu, desmanchei as bolhas de sabão...estendi o coração
tentando achar as rachaduras, tentando costurá-las... que tristeza essa inventada!
que dor mal curada... que triste seria sem tua compania...
e agora se te olho no ontem, vejo o hoje diferente, se te encontro por aí, vejo o ontem que não foi.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Onde o caracol habita

















Ela mora num prédio velho.


As escadas são caracol.


Lá embaixo, ela pensa - ainda menina - é onde os mortos escutam.






Mona já tem vinte anos e olha aquele homem com seus olhos dos doze.






Agora, ela ouve gritos. É a mulher dele. Lisa tem cabelos pintados de loiro.


Escuta os tiros. Ele a acertou. Bebeu a tarde toda, deu nisso, pensa a Dona Zilá, vizinha do alto. Onde o caracol olha. E o síndico, Seu Moreira, chamou a polícia. Ele vive no térreo. Onde o bicho esconde o rabo.






Saí do ap. Olhei e vi ele algemado. Olhou para mim, como uma fera, prestes a ser engaiolada.






A loira está com os olhos inchados, enegrecidos. A tinta escorre de dentro do ap.


Ela chora, terminando uma melodia lamuriosa. Lamentando tudo, mas lamentando ter que lamentar. Ela o ama, dá pra ver nos seus olhos.






Seu corpo é colocado numa maca, fecham o zíper. Ela vai para o necrotério.


Coitada!






Morreu loira! Devia querer isso. Nunca deixava o cabelo escurecer direito e já comprava wellaton, pintava fio por fio.






O 38 estava na mão do policial.






Lembrei da fera; nesse momento...






8 anos atrás. A campainha tocou. Achei que fosse a nova moradora, Dona Zilá. Mas era o motoboy. Nunca soube direito o nome dele. Todos o chamavam assim. Acho que era Guilherme, não sei direito. Ele estava na minha frente, pediu um pouco de erva para tomar tereré. Fui à cozinha buscar. Ele nem trouxe nada para levar. Que folgado, pensei. Quando voltei, ele tinha fechado a porta. Vinha pro meu lado. Encostou o corpo no meu e passou a mão na minha bunda; senti um arrepio. Ele começou a se esfregar em mim. De repente abriu o zíper. Tirou o pinto pra fora, duro. Eu nunca tinha visto um pinto de homem adulto. Em volta muitos pelos, negros. Eu corri pro quarto. Ele saltou.


Os pêlos cresceram rapidamente. Seu corpo aumentou de tamanho. Seus músculos tomaram forma monstruosa. Parecia o Hulk, só não era verde. Uma fera. Saltava alto e soltou um urro. Parecia um lobisomem. Mas era meu vizinho. O caracol se contorce. Mas paredes não têm vida. Elas testemunharam mudas. Rasguei as cortinas. Os panos cobrem a dor. Ele me achou. Me pegou nos braços e me jogou na cama com muita força. Ai de mim!


Perdi o rumo. Ele me abriu. Feito uma rosa, aberta pelos espinhos. Tirou minhas pétalas. Animal feroz! Seus pelos entraram por mim. Suas veias corriam no meu sangue. Meu sangue escorreu sobre o lençol.


Ela sorria na duvida; a olhei na certeza de que aquilo já era a minha história. Seu cabelo liso e escorrido lembrava a cor do cabelo da mulher dele; mas sua duvida era a minha. Quem a pintou?


Achei que podia ser como ela, uma tela na parede de um quarto qualquer. Mas meu corpo se movia. Ele urrava e me surrava toda. Suando sobre minha pele. Derramando o cheiro mofado daqueles pêlos todos. Ai de mim!






Agora a fera está algemada. Mas ele poderia fugir, tem muita força. Eu sei!


Será que eu o amei?


Fecham o zíper. A levam para o necrotério. O cabelo amarelo, como ela sempre gostou. Entro no quarto, olho o quadro. Agora eu sei que a Monalisa foi pintada por Leonardo Da Vinci. É o que me disseram.Abro a geladeira, ligo o som, faço um sanduíche, esquento no microondas. Procuro a coca-cola.

sábado, 20 de março de 2010

S e g u n d o ATO

P E D R O liga o som. Acerta o despertador. Atira a roupa no cesto. Se enrola na toalha. Liga o chuveiro!

Guarda a moto. Acorda cedo. Toma café...veste o mesmo uniforme. O pai se aposentou. A mãe prepara o jantar. A vizinha lê Calabar...

O ponteiro se adianta. Pedro levanta. Desliga o som, tira o cd. Liga a tv. Põe um filme. Não conta o tempo. Esquece a hora. Bebe o vento.

Paga o aparelho. Compra um tênis, alguns novos cd´s...Alguém o vê

não bebe leite. Não bebia cerveja. Não se senta à mesa. Não vai ao bar. Joga sinuca. Nem esquenta a cuca...Beija na boca. Vai a um motel...Guarda um dolar.

Chega no horário. Bate o armário. Ri a toa. Visita os amigos, tomam tereré, falam de mulher...

acabou o sábado...a moça olha o céu, outra não tira a maquiagem...

Pensa na praia. Olha por baixo da saia. A moça nem nota. Liga o som. Desliga a tv. Abraça a almofada. Coleciona playboy..Faz serviços de motoboy..

enlouquece ao vê-la...Linda e loira..Ela nem o percebe.Mas ele descobre..Seu nome é Amanda!

( o conto que compoe a trilogia que iniciei com Rosa em cena)

sábado, 6 de março de 2010

São João


O céu enfeitado de papel. A fogueira acesa. O frio congela os ossos de Novo Horizonte. Pequena cidade ao sul. Ivete beberica o quentão. Termina de cobrir as maçãs do amor. Expõe na frente da barraca de sapé, os quindins feitos por ela. Sorri... Davi procura uma estrada que o destino o leve para longe. Mas sempre se encontra ali, no mesmo lugar, a cada passo mais perdido. Aquele pequeno redemoinho que ele viu aos 8 anos cresceu naquele verão e o engoliu para dentro de seu próprio casulo. A vida esqueceu a maquiagem. Os dias se cansaram de correr. Ivete se lambuza de desejo. Davi tenta fugir, mas o mesmo caminho se torna inevitável em noites sujas e febris. Quando sempre não se tem para onde ir. Ela assiste a quadrilha. Se entope de lembranças. Ele carrega o fardo de não ter fardos. A mãe partiu, com as mãos pintadas de paixão. Abandonou o pai que foi morar numa garrafa de pinga, mergulhado na embriaguez. Ivete procura Chico com os olhos. O irmão dela procura as estrelas que perdeu no céu... mas o céu se encheu de papel, se formando outro obstáculo. A noite nua espera o corpo cru de Davi... ela também o deseja. Janelas se abrem. Maridos fingem o sono para que suas esposas se satisfaçam nos músculos frágeis do garoto de 18. Mas ele fecha seus labirintos. Chico desencontra Ivete. Ela entope o fim com seus quindins. Davi caminha sem fim, esperando chegar a outro lugar.

São João



O céu enfeitado de papel. A fogueira acesa. O frio congela os ossos de Novo Horizonte. Pequena cidade ao sul. Ivete beberica o quentão. Termina de cobrir as maçãs do amor. Expõe na frente da barraca de sapé, os quindins feitos por ela. Sorri... Davi procura uma estrada que o destino o leve para longe. Mas sempre se encontra ali, no mesmo lugar, a cada passo mais perdido. Aquele pequeno redemoinho que ele viu aos 8 anos cresceu naquele verão e o engoliu para dentro de seu próprio casulo. A vida esqueceu a maquiagem. Os dias se cansaram de correr. Ivete se lambuza de desejo. Davi tenta fugir, mas o mesmo caminho se torna inevitável em noites sujas e febris. Quando sempre não se tem para onde ir. Ela assiste a quadrilha. Se entope de lembranças. Ele carrega o fardo de não ter fardos. A mãe partiu, com as mãos pintadas de paixão. Abandonou o pai que foi morar numa garrafa de pinga, mergulhado na embriaguez. Ivete procura Chico com os olhos. O irmão dela procura as estrelas que perdeu no céu... mas o céu se encheu de papel, se formando outro obstáculo. A noite nua espera o corpo cru de Davi... ela também o deseja. Janelas se abrem. Maridos fingem o sono para que suas esposas se satisfaçam nos músculos frágeis do garoto de 18. Mas ele fecha seus labirintos. Chico desencontra Ivete. Ela entope o fim com seus quindins. Davi caminha sem fim, esperando chegar a outro lugar.